João Braga lança “Cadeira n° 39 – Pronunciamentos na Academia Brasileira da Moda” no Rio de Janeiro

 

No dia 25 de agosto o professor João Braga (foto), imortal da Academia Brasileira da Moda, e maior historiador da moda no Brasil, lançou seu livro “Cadeira n° 39 – Pronunciamentos na Academia Brasileira da Moda”, em cerimônia realizada no Copacabana Praia Hotel 😎

A solenidade contou com várias personas da moda carioca, como Hildegard Angel, Ruth Joffily, Celina de Farias, que compõem parte do corpo principal da Academia Brasileira de Moda e produziram o evento, além de jornalistas e alunos de moda, entre outros.

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João Braga / Fotografia: Marcelo Borgongino e Verônica Pontes

O livro comemora a obra do mestre, um dos maiores pesquisadores do país, trazendo várias considerações de jornalistas, pessoas próximas, ex-alunos e profissionais da moda e de áreas diversas; a publicação é apresentada por Hildegard Angel, presidente da Academia Brasileira da Moda, e também traz os discursos e sua explicação para o “Pronunciamento P”, que conta a história da vida de João Braga através da aliteração da letra “P”, de professor, proferidos à época de sua consagração, dia 4 de agosto de 2017 – reveja esse momento histórico!

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Ruth Joffily, secretária geral da Academia Brasileira da Moda, e Marcello Borges/ Fotografia: Marcelo Borgongino e Verônica Pontes

E o professor nos presenteou com uma verdadeira aula de história da moda, que foi desde as origens da palavra “tendência”, entre as décadas de 70 e 80, durante o apogeu da crise do petróleo, que foi redirecionada para o segmento da moda, e os registros rupestres mais antigos que ilustram os primeiros primatas com alguma preocupação no vestir, encontrados na França; até as influências européia e africana sobre nossa moda, cultura, vocabulário e até mesmo vivências digitais nos dias de hoje.

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Simone Rodrigues, Hildegard Angel e João Braga / Fotografia: Marcelo Borgongino e Verônica Pontes

João Braga também pontuou como o Brasil carrega a influência francesa sob vários aspectos, a começar pelo próprio nome: o pau-brasil, árvore nativa de onde era extraída a tinta vermelha para o tingimento de móveis e roupas da nobreza da Europa – um indicador de prestígio social desde a Roma antiga – era inicialmente conhecido por “poi de brés”, em francês, e pau-de-brasa, em português, em referência à cor da matéria prima fornecida; expressão que com o tempo, variou para “pau-brasil”. E os “brasileiros” eram conhecidos como as pessoas que cortavam a árvore, a ser levada para o outro continente, a primeira atividade econômica do país, executada às custas dos nativos daqui.

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João Braga, Elisa Lopes, Lucília Lopes e Celina de Farias, vice-presidente do Instituto Zuzu Angel / Fotografia: Marcelo Borgongino e Verônica Pontes

Questionado sobre o futuro da moda, Braga reconhece que hoje é extremamente difícil valorizar uma moda nacionalista e identificar como inglesa, francesa, americana e até mesmo brasileira, pois até Paris perdeu o posto de ser o único epicentro lançador de moda. De acordo com o mestre, moda no Brasil é qualquer coisa que usemos como moda, e a moda brasileira acontece quando nos enxergamos e damos significado a ela, seja na forma de adereços ou de um evento social, palestras, cursos e até mesmo o nosso bate-papo àquela tarde; e chamou a atenção sobre o barroco como parte fundamental da nossa formação cultural, diretamente ligada à intensidade e ao culto ao exagero.

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“Acho que ser barroco no Brasil é infinitamente mais legítimo do que que ser minimalista; nada contra ser minimalista, mas a nossa identificação é muito maior; somos intensos, ao sermos extremamente coloridos, ao sermos espalhafatosos, isso é brasilidade. Não quero dizer que é  única coisa a ser feita, a única coisa a ser dita, mas é uma herança que corresponde muito mais à nossa herança, à nossa autenticidade, à nossa identidade, e somos felizes assim” – João Braga / Fotografia: Marcelo Borgongino e Verônica Pontes

Hilde Angel também pontuou que a construção da nossa identidade também passa principalmente pela herança africana, e revelou que o Instituto vai participar da FLUP – Festa Literária das Periferias, que já está acontecendo no Cais do Porto; pela primeira vez o encerramento será com moda, na forma de um desfile que reflita o protesto político da estilista Zuzu Angel. Este será realizado somente por estilistas negros, que irão se inspirar de acordo com a orientação de pessoas com notório saber sobre a moda produzida por ela, e vão desenvolver uma coleção para denunciar o genocídio dos jovens negros, assunto detalhado dias depois em sua coluna no Jornal do Brasil.

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Paula Acioli, Simone Rodrigues, Márcia Hamaoka e eu <3 / Fotografia: Marcelo Borgongino e Verônica Pontes

Ela observou a importância da causa, que mobiliza e atinge toda a comunidade afrobrasileira, pois está levando valores, talentos, pessoas com um futuro enorme e perspectivas, apesar da pobreza, inclusive. E como historicamente o Brasil sempre produziu grandes artistas de origem pobre, então quantos milhares de jovens negros, que em maioria também são pobres, estão sendo assassinados cotidianamente ao longo dos anos no Brasil?

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“Será um momento muito importante da moda brasileira, porque essa é a nossa grande tragédia social” – Hildegard Angel sobre o genocídio do povo negro / Fotografia: Marcelo Borgongino e Verônica Pontes

E o professor João Braga foi surpreendido pelo convite de Hildegard para compor o time de especialistas que está realizando a curadoria aos sábados, até o final de setembro, na Casa Zuzu Angel; o desfile de encerramento está previsto para novembro, então fiquem de olho no calendário da FLUP!

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Ricardo Castro, Hildegard Angel, Vanja Chermont de Brito e João Braga / Fotografia: Marcelo Borgongino e Verônica Pontes

Outro ponto fundamental discutido foi sobre a falta de recursos e acervos perdidos pelo país inteiro por falta de investimentos e de percepção histórica e cultural por parte do governo. Institutos que já existem, com amplos e valiosos acervos, mas que não recebem investimento para que haja avanços e uma preservação digna das nossas memórias; instituições que estão se afundando por conta de interrupções em seus pagamentos e nos contratos que as mantêm sediadas.

Segundo Hilde, o Metropolitan Museu de Arte, em Nova Iorque, recebe mais visitantes que o Egito em um ano inteiro, atraídos por suas exposições de moda, atestando que a moda é o maior atrativo para museus no mundo; no entanto, aqui no Brasil essa visão não existe por falta de cultura. E sobre ela, o professor João Braga ainda trouxe um dado alarmante: 58% das crianças brasileiras em ensino fundamental, até 8, 9 anos, são analfabetas. “Culpa nossa. Todos nós aqui temos essa dívida”  Hildegard Angel.

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“Eu complemento dizendo que isso mostra a importância do trabalho do instituto Zuzu Angel no trabalho da preservação da memória da moda nacional, porque é a Academia Brasileira da Moda, é a Casa Zuzu Angel com seu acervo, e o Instituto Zuzu Angel, isso não tem preço num país que não tem memória” – Celina de Farias, sobre carta de ex-aluna em gratidão à obra do professor João Braga. / Fotografia: Marcelo Borgongino e Verônica Pontes / Ilustração: André Toma

A estilista Lucília Lopes,  dona do atelier homônimo, famoso pela assinatura em seus vestidos de noiva, lembrou com emoção que muitas mulheres e homens puderam educar seus filhos através da costura, da moda, da arte e de todos os ofícios relacionados; e pediu a todos, sobretudo aos mais jovens, que sempre levem isso consigo. “A gente fala em moda, mas pegar um tecido, imaginar, cortá-lo, moldar no corpo de uma mulher…isso aí é arte, garotos.Vocês devem estar orgulhosos com este Instituto” 

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“Quero deixar aqui registrado que um dos orgulhos que eu tenho na vida é ter sido a primeira conselheira do Instituto Zuzu Angel, o instituto é o meu amor (…) consegui ensinar 11 pessoas, mas não fique muito alegre, somente 3 usaram essa máquina que é a mão, de fazer felicidade, né? Porque a moda faz felicidade (…) Por isso vamos à educação, o Instituto está aí para educar, de uma forma tão linda, que é a arte” – Lucília Lopes / Fotografia: Marcelo Borgongino e Verônica Pontes

Para o professor João Braga, o Rio de Janeiro é a grande memória da moda nacional; e Paula Acioli, coordenadora do curso de Gestão Estratégica em Negócios de Moda da Fundação Getúlio Vargas, criticou a ausência de investimentos, programas e vontade política para a criação de ações de fomento e preservação da cultura, como um calendário de visitações a cidades e institutos dentro e fora do país, que ajudaram a construir a história da moda no mundo, por exemplo.

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“O Rio, sem desmerecer nenhum outro estado do Brasil, é até hoje, na minha percepção, um dos maiores lançadores, difusor, de moda no Brasil inteiro e no mundo” – Paula Acioli / Fotografia: Marcelo Borgongino e Verônica Pontes

O Instituto Zuzu Angel possui em seu acervo várias peças emblemáticas, frutos de doação, como as feitas por Simone Rodrigues, presente no evento e viúva de Ibrahim Sued, que criou o fraque brasileiro, um fraque único e curto.  Por outro lado, Vera Tostes, ex-diretora do Museu Histórico Nacional mostrou preocupação com o acervo de roupas catalogado desde o século XIX, entre vestidos de viscondessas do 1° reinado, que está parado desde a sua saída, e revelou temer pelo seu fim; João Braga também lembrou que as roupas de Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930), baronesa bilionária da cidade de Vassouras, RJ, que se vestia com ouro, já se desintegraram. “São 42 peças históricas, do século XIX, nem todas de ouro, que estão virando virando pó.”

Por isso um convite aberto foi feito para quem tiver itens de ordem histórica e que queira doá-los, para que entre em contato com instituições e pessoas responsáveis 🙂

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“Nós sustentamos o Instituto Zuzu Angel, o que é uma piada, você não conseguir, junto a uma prefeitura, num governo do estado, da cidade, nenhum apoio (…) Quando formos embora, quem é quem vai dar segmento a isso?” – Francis Bogossian, presidente da Academia Nacional de Engenharia, sobre o esforço sobre humano de manter o Instituto Zuzu Angel, que é a casa da própria Hilde, um imóvel histórico com mais de 200 anos. / Fotografia: Marcelo Borgongino e Verônica Pontes

Momento ‘orgulhinho’ 😀

Também tive o enorme privilégio de ter duas fotos publicadas na coluna da Hilde no Jornal do Brasil no dia 29/8 em suas versões impressa e on line, autoria de Marcelo Borgongino e Verônica Pontes, fotógrafos e donos de um dos 10 blogs com a maior quantidade de acessos no país! Gratidão a todos os envolvidos 💖

Coluna da Hildegard Angel >>> http://www.jb.com.br/_conteudo/colunistas/hildegard_angel/2018/08/1467-beth-winston-abriu-de-novo-a-casa-linda-mesmo-em-obras-ainda-para-festejar-o-aniversario-de-ruth-sabba.html

Blog do Marcelo Borgongino >>> marceloborgongino.blogspot.com

untitled-3-3 whatsapp-image-2018-09-11-at-15-01-2*Detalhes sobre o outfit do dia no Instagram: @arkfera / Fotografia: Mariana Alves

 

Considerações…

– Se “ser brasileiro” não é sinônimo de “ser colonizado”, eu não sei mais o que é! Cabe a nós ressignificar esta palavra de uma vez por todas ou continuar aceitando o legado que impuseram através dela sobre nós.

– O evento e discussões [proféticas] ocorreram uma semana antes da tragédia anunciada há pelo menos 10 anos no Museu Histórico Nacional, na noite do dia 2 de setembro de 2018.

– Mais uma estranha coincidência: cinco dias antes, no dia 27/8, veio a público que o MCB – Museu da Casa Brasileira, outro espaço dedicado às artes, situado à Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, e que tantas vezes foi assunto aqui no Olho Mágico, corre o risco de perder o imóvel pelas mesmas razões levantadas em nosso encontro: a Fundação Padre Anchieta não tem interesse em renovar o contrato de comodato de 50 anos do imóvel, a vencer em 2021.

– Estagiei no restauro do torreão sul do Museu Histórico Nacional, e a dor de ver não apenas uma parte fundamental da nossa história, mas uma parte fundamental da história das Américas e da humanidade é incomensurável. Vinte milhões de itens catalogados. Luzia, que resistiu a 12 mil anos de intempéries, mas sucumbiu a alguns anos de negligência humana. No entanto, acho que encontrei a medida exata nas palavras de Rui da Cruz Jr., funcionário servidor do MHN, então resolvi reproduzi-las aqui:

“UMA TRAGÉDIA MAIS SIMBÓLICA, IMPOSSÍVEL. Seguimos falhando: como cidade, estado e país. Vivemos uma falência econômica, cultural, moral e ética, e não é difícil enxergar como tudo isso se interliga. Dos 20 milhões de itens do acervo, um dos poucos que restou foi o meteorito Bendengó. Isso deve querer dizer alguma coisa. Criamos um prejuízo incalculável para a história do Brasil e da humanidade, além de termos perdido uma parte da nossa identidade. Até quando viveremos inertes, como zumbis?

“Queimamos o quinto maior acervo do mundo. 
Queimamos o fóssil de 12 mil anos de Luzia, descoberta que refez todas as pesquisas sobre ocupação das Américas. 
Queimamos murais de Pompeia. 
Queimamos o sarcófago de Sha Amum Em Su, um dos únicos no mundo que nunca foram abertos.
Queimamos o acervo de botânica Bertha Lutz.
Queimamos o maior dinossauro brasileiro já montado com peças quase todas originais. 
Queimamos o Angaturama Limai, maior carnívoro brasileiro. 
Queimamos alguns fósseis de plantas já extintas. 
Queimamos o maior acervo de meteoritos da América Latina. 
Queimamos o trono do rei Adandozan, do reino africano de Daomé, datado do século XVIII. 
Queimamos o prédio onde foi assinada a independência do Brasil. 
Queimamos duas bibliotecas. 
Queimamos a carreira de 90 pesquisadores e outros técnicos. 
O que arde no Museu é uma parte da história antropológica da humanidade. Da história científica da humanidade. 
Se eles pudessem, nos queimavam junto com as paredes do museu, com o prédio em si, com as salas de onde D. Pedro II reinou, com os corredores por onde transitaram os feitores da primeira constituição da república, 
se eles pudessem, eles nos queimavam. 
É imensurável o que perdemos.
Eu tô engolindo o choro. “Todos que por aqui passem protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir o seu próprio futuro”. Era isso que vinha escrito no chão, frente ao Museu Nacional.” – Rui da Cruz Jr.

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Manifestante anônimo às portas da Quinta da Boa Vista, o quintal do MHN, em 3/9/2018, ~10h. / Fotografia: Acervo pessoal 

 

– Moda não é sobre ter; é sobre ser. Reflitam