Projeto Moda Rio é consagrado na Barra Olímpica!

 

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Após o sucesso estrondoso em maio, no dia 29/7 foi realizada a sexta edição do Projeto Moda Rio, que mudou de endereço: saiu da zona portuária e foi para o Novotel Parque Olímpico, na Barra.

A mudança estabeleceu um novo marco para o movimento que pretende recolocar a moda carioca no circuito fashion brasileiro, e que, após 8 meses de trabalho árduo, reuniu cerca de 200 pessoas somente nesta edição; o nível da produção foi ainda mais elevado e encerrou o dia em grande estilo com um belo e imponente desfile comemorativo!

 

 

História da Moda e suas vertentes

O evento contou com várias autoridades ligadas à área de moda, a começar pela ilustríssima escritora e jornalista Ruth Joffily, que também é secretária geral da Academia Brasileira de Moda e uma das imortais da Academia, fundada pelo Instituto Zuzu Angel.

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Mônica Bretanha, Veluma, Wallace Safra e Ruth Joffily / Fotografia: David Engel

Ruth abriu os debates abordando o tema , e chamando a atenção para a sua transitoriedade da moda: seus signos e valores estão em constante mudança, por isso é necessário tomar cuidado com os preconceitos, com a forma como enxergamos o outro e tentar visualizar como somos lidos. “As coisas são interligadas através da imagem, da cultura” 

Também trouxe à luz o consagrado estilista Luís de Freitas, que revolucionou a moda masculina nos anos 80 com a MR. Wonderful, e citado no livro “Nasci Gay”, de autoria da própria Ruth, referente aos profissionais que trabalhavam com ela.

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“A moda hoje está nas universidades, mas o Luís, pela sua criatividade, é um caso de estudo, ele foi muito além de ser um doutor; ele queria ser um doutor, mas hoje ele é estudado pelos doutores, é uma referência de moda nacional.” – Ruth Joffily / Fotografia: David Engel

Em seu livro, Ruth Joffily já abordava o fato de que a questão sexual não é pré-requisito para julgamentos, e que à época, há apenas cerca de 6 anos, ninguém queria editá-lo, por sua ousadia em abordar o assunto. Entrou num crowdfunding (plataforma on line para arrecadar dinheiro através de doações), mas não conseguiu o suficiente, então fez um livro blog, com ilustrações de Antônio Cavallo; mas em 2012 conseguiu publicá-lo.

 

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Mônica Bretanha, Ruth Joffily e Veluma / Fotografia: Luis Moras

“A gente precisa fazer aquilo o que acredita, e focar naquilo em que acredita.” Ruth Joffily


A ex-modelo e atriz Veluma também nos brindou com sua ilustre participação e presença de espírito nesta edição, e revelou detalhes sobre sua experiência de vida como sendo uma das primeiras modelos negras brasileiras, nos anos 70, ao lado de nomes como Marlene Silva, Elke Maravilha e Mary Help.

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“É importante se apoiar na família e na espiritualidade para superar os preconceitos da profissão de moda.” – Veluma / Fotografia: David Engel

Veluma fez a Escola de Moda e foi modelo de cabine, o que significa que à época ela precisava vestir a roupa perfeitamente, e não o contrário. Realizou este trabalho para etiquetas como a Burda, onde viveu e aprendeu o comportamento, a postura e o ‘ser mulher’, até chegar no estilista Guilherme Guimarães, grande nome da alta costura brasileira, com apenas 19 anos. A oportunidade abriu portas para seu trabalho no exterior, em países como França e Suíça, e ressalta como a educação e a formação fazem toda a diferença nessa hora.

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“A recepção também faz parte da carreira de modelo e manequim, saber tratar o outro é importante. Tem que saber falar sim, e tem que saber escrever também” – Veluma / Fotografia: David Engel

E foi através da mãe, que era cozinheira, que desde cedo soube onde seria seu lugar no mundo – como a maioria das mulheres e na qualidade de modelo, Veluma teve que enfrentar desde pequena as adversidades decorrentes do pré-julgamento feito a partir do tom da sua pele, textura de cabelos e condição social; mas foi assim que com o tempo ela foi adquirindo as armas necessárias para subverter toda a lógica do sistema. E observando o público jovem presente no Projeto Moda Rio, ela também alertou para uma mudança drástica que os eventos de moda sofreram desde a sua época: o perfil da platéia.

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Público da 6ª edição do Projeto Moda Rio / Fotografia: David Engel

Nos extintos eventos de tecelagens, as modelos eram envolvidas em tecidos para desfilar e assim vendê-los aos presentes; a platéia era formada basicamente por senhoras – costureiras, modelistas, comerciantes da área têxtil – e algumas manequins mais jovens. Lembrando a crise no setor, que há anos vem perdendo diversos profissionais, em contraponto à jovem platéia que hoje lota feiras e eventos de moda, encerrou com um alerta para o futuro:

“Vocês não terão roupas se não lutarem pela moda. Se não lutarem pela estilista, pela modelista, pela costureira, não vai existir moda brasileira; vocês são jovens e precisam lutar pela moda brasileira”

 


 

Mônica Bretanha, palestrante, é consultora de imagem, e sua entrada no meio acadêmico da moda se deu nos últimos 10 anos; começou como Veluma, na Escola de Moda, levando varetadas nas pernas até aprender a desfilar corretamente, uma prática desumana, porém corriqueira até o início dos anos 90.

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“Hoje a moda é uma profissão acadêmica, pois envolve Filosofia, Antropologia, Sociologia, Artes Plásticas e Design” – Mônica Bretanha / Fotografia: David Engel

Fez Licenciatura em História, pós em História da Arte e hoje dá aulas de estilo e etiqueta para executivos, secretárias, auxiliares de escritório, etc, através das empresas que a contratam. No entanto, seu primeiro registro na carteira de trabalho é de “Artista Manequim”, e revela que tem o maior orgulho em ostentá-lo, por ser um título extinto.

Mônica também viaja todo ano há 10 anos para observar outras culturas e comportamentos, e assim aprimorar a sua atuação no mercado. Resgatando a explanação de Ruth Joffily,  explicou como é importante a interação com outras culturas e a interface entre passado e presente para compreendermos o momento que estamos vivendo e projetar um futuro mais bem-sucedido.

 

Gestão de carreira, imagem, estilo e a força de ser um produto

 

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“A roupa de praia é a única coisa que o brasileiro faz questão de levar na mala” – Sharon Azulay / Fotografia: Luis Moras

A diretora criativa e dona da Blue Man, Sharon Azulay, também veio somar ao evento com toda a sua experiência profissional e de vida, que teve uma enorme reviravolta aos 16 anos, logo após o falecimento de seu pai, David Azulay, em 2009.

À época, a Blue Man já era um império com mais de 20 anos de história no mercado nacional e internacional.

Sharon revelou que herdar um império com apenas 18 anos de idade passou muito longe de ser um conto de fadas. Foi uma pressão enorme, que gerou uma grande crise de identidade, agravada pelo sofrimento decorrente da perda do pai.

Mas com o tempo conseguiu superar seus bloqueios e conflitos de auto imagem e compreendeu que precisava se tornar a cara da própria marca.

Estabelecendo várias mudanças na empresa nos últimos 10 anos, hoje a Blue Man registrou um aumento de 30% em suas vendas, além de a venda de maiôs ter crescido 130%, uma grande vitória em meio ao atual cenário de crise.

 

 

 

Sharon ainda dispara que a maioria das blogueiras não têm profundidade, e apenas se trocam por likes, transformando a própria imagem em uma ilusão; ela critica duramente não apenas quem cobra cifras absurdas para vestir uma marca ou comparecer a um evento, mas também as marcas que pagam por isso.

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“A pessoa tem que comprar pra ter, é assim que deve ser” – Sharon Azulay / Fotografia: David Engel

 


 

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Késia Estácio / Fotografia: Luis Moras

Outra convidada especial, a atriz e cantora Késia Estácio, ex-participante do The Voice Brasil, também compartilhou sua trajetória de muitas lutas, que cruzou com a moda em vários momentos da sua vida.

Seu estilo despojado e irreverente conquistou os presentes, e iluminou mais ainda o clima do evento!

Filha de mãe costureira, Késia nasceu em Miguel Couto, Nova Iguaçu, e sempre teve um biotipo favorável às passarelas; no entanto, a possibilidade tornou-se remota, visto que não conseguiria se adaptar às privações que a carreira de modelo exige.

Também revelou que chegou a fazer um curso de corte e costura, mas percebeu rapidamente que não seria um caminho: as roupas produzidas por ela não vestiam.

 

 

 

 

 

De família evangélica, a música veio por influência religiosa; mas foi aos 23 anos, quando saiu de casa e foi para o Vidigal, em São Conrado, que a música e a moda vieram com mais força. 

“Todo mundo estranhou, tipo: ‘você vai sair da sua casa em Nova Iguaçu pra ir morar numa favela no Rio de Janeiro??’ Mas eu acredito que quando a gente tem um sonho tem que correr atrás e fazer o que for necessário pra conseguir”

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Késia Estácio, Sharon Azulay, Wallace Safra e Danielle Souza / Fotografia: David Engel

Hoje Késia vive da música e teatro, através do grupo “Nós do Morro”, do Vidigal, que foi onde se encontrou enquanto mulher, já que a religião estabelecia muitas barreiras para o autoconhecimento e conexões com o universo que a acolheu.

Késia faz teatro, musical e atualmente se considera uma pessoa bem-sucedida, pois acredita que o sucesso está relacionado à realização pessoal, mas os planos de ascensão ainda vão longe!

 


 

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“A experiência fora do Brasil é fundamental para olhar de fora e identificar o que precisa ser melhorado”  – Danielle Souza / Fotografia: Luis Moras

A jornalista do Band News e assessora de imprensa Danielle Souza, presigiou O Moda Rio e fez uma riquíssima contribuição decorrente de suas experiências fora do país.

Ela revelou ter conquistado este sonho por ser uma pessoa de impulsos: teve uma primeira e única oportunidade de ir para a Europa e foi, mesmo sem saber uma palavra em italiano – mas tempos depois ela percebeu que, na profissão, isso equivalia a praticamente rasgar o diploma recém-conquistado.

No entanto, soube tirar partido da adversidade: estudou no Istituto Europeo di Design (IED) em Milão durante 3 anos, passou 2 anos na Áustria e voltou para o Brasil; sua idéia era produzir uma marca por aqui, mas percebeu que, na prática, produziria só para ela.

Então foi para a escola ‘Nós do Morro’, Vidigal – a mesma onde Késia Estácio trilhou os passos de sua carreira – e ficou chocada com a quantidade de talentos genuinamente nacionais a serem descobertos.

 

 

 

 

Em Milão, teve a oportunidade de participar de grandes desfiles de moda, mas com uma importante ressalva: é necessário chegar muito cedo, pois todos os jornalistas do país recebem convites, independente da capacidade de lotação do local do evento. Ela conta que descobriu da pior forma: perdendo um desfile de Salvatore Ferragamo, quando foi recomendada que madrugasse nos próximos eventos.

Danielle também é personal stylist e cool hunter (caçadora de tendências, profissão que teve seu advento nos anos 80) e chamou a atenção para a produção despojada de Késia e o fato de que o conceito de estar na moda hoje é ter estilo.

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“Hoje os fotógrafos estão muito mais interessados no street style, é o atual interesse deles; se estivéssemos em um evento de moda em Milão, por exemplo, ninguém nem olharia pra mim, todos os holofotes estariam sobre ela (Késia)” – Danielle Souza / Fotografia: David Engel

Além disso, idealizou e gerencia a @italyfashiontime, plataforma que oferece uma experiência única de vivenciar a moda italiana em Milão; em relação aos rumos da moda, destaca que, segundo a WGSN, nos 2 últimos anos uma tendência perigosa arriscada para o varejo vem se desenhando no mercado: o atemporal, que também remete a peças com maior durabilidade no guarda-roupas.

Com os ajustes decorrentes desta mudança, ela conta que os Show Room (exposição de roupas e acessórios por modelos vivos em estandes de feiras ou lojas de marca) são uma tendência forte na Europa, e que tem sido a melhor porta de entrada para modelos por lá.

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“As pessoas estão deixando de se interessar sobre moda, desfiles são caros e cada vez mais desnecessários, apresentações são mais em conta e mais eficientes.” – Danielle Rocha / Fotografia: David Engel

Invocando o discurso de Sharon Azulay, Danielle Rocha também confessa que no início não viu com muita simpatia o advento das blogueiras, pois viu de perto que faltava profundidade“A blogueira tem o seu valor, pois é como aquela amiga que te indica algo bom; mas quando precisa ser paga pra aparecer, perde o seu valor.” Mas reconhece que parcerias são necessárias, principalmente quando se está começando, e que em algum momento seu valor será reconhecido; até lá, resiliência, trabalho e dedicação.

 

Modelos e desafios do novo mercado

 

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“Quando falamos do meu povo, precisamos falar de empoderamento, porque a gente ainda se acha muito incapaz, e o poder vem do conhecimento” – Felipe Rocha / Fotografia: Luis Moras

O novo modelo da C&A, Felipe Rocha, também veio prestigiar a 6ª edição do Projeto Moda Rio e inspirar a platéia. Com apenas 19 anos, ele já tem a enorme responsabilidade de representar uma das maiores gigantes do varejo no mundo numa fase de reposicionamento da marca no mercado.

Felipe nasceu em Feira de Santana, Bahia, e sempre teve o sonho de ser modelo; mas como o mercado de moda baiano não oferece muitas oportunidades, começou a se preparar para seguir o caminho acadêmico. Enquanto estava no ensino médio decidiu ser juiz, chegou a estagiar no TRT da própria cidade, e passou para a faculdade de Direito na UEFS.

Mas um dia a vocação falou mais alto, e, descendo do ônibus, viu um cartaz de concurso que buscava de talentos “new face” e sentiu que aquele poderia ser o seu momento.

Felipe entrou em contato com a agência, se inscreveu e passou pelas 4 etapas dos processos seletivos, ganhando o concurso, e veio para São Paulo no final de fevereiro/2016, iniciando a sua carreira.

 

 

O início foi difícil, pois o perfil de beleza paulista é totalmente diferente do perfil de beleza baiano, onde precisava malhar muito e exibir um corpo forte e bem definido. Com a mudança, teve que emagrecer rapidamente, sempre com acompanhamento nutricional e muita atividade física, pois seu primeiro trabalho já era o São Paulo Fashion Week, o 5° maior evento de moda do mundo!

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“Levei um choque de realidade (…) comecei emagrecendo, tentando não pirar, porque a gente tem sempre que pensar na nossa saúde, em primeiro lugar, porque sem saúde também a gente não trabalha (…) Quem está de fora não percebe o quanto você está ralando, mas ninguém valoriza suas coisas, ninguém sabe o que está passando” – Felipe Rocha / Fotografia: David Engel

No entanto, os planos não saíram como o desejado; Felipe não conseguiu emagrecer a tempo e começou a pensar que os planos não dariam certo de qualquer forma. Também já tinha enfrentado forte resistência por parte da mãe, que nunca quis que viesse, pois a nova escolha o obrigou a largar a faculdade recém-conquistada, já que não era possível se matricular e trancar o período logo em seguida.

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Felipe Rocha / Fotografia: Luis Moras

“A gente começa a ser modelo muito novo, mas não tem experiência mental, psicológica pra segurar uma barra dessas, ainda mais longe dos pais, então tem que estar muito preparado e decidido (…)

Ser modelo me tornou muito paciente, é uma carreira que você constrói da mesma forma que uma carreira acadêmica”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas foi após um mês de estadia e o posterior apoio dela que fizeram toda a diferença: 15 dias após conversarem e a própria mãe enviar a ele uma quantia que garantiria a sua permanência por mais 2 meses em São Paulo, Felipe Rocha conquistou a campanha da C&A e não parou mais. Já trabalhou para marcas como a Ellus, Cavalera, LAB, e segue firme rumo à São Paulo Fashion Week este ano.

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“Parece meio clichê, mas quando achar que tudo está dando errado continua mais um pouquinho, porque nada da certo na primeira tentativa (…) Ser humilde com você mesmo é a melhor forma de despertar sua empatia, reconhecer os próprios erros, isso é o que vai te tornar um profissional de verdade” – Felipe Rocha / Fotografia: David Engel

Hoje Felipe Rocha se sente muito bem, apesar de não ter conquistado tudo o que quer ainda, pois já conquistou objetivos que tinha e nunca imaginou que conseguiria concretizar; tem um bom plano de carreira e vai completar 1 ano e 6 meses na cidade este mês. Mas não deixou de questionar os padrões definidos pelo mercado, sempre em pauta no Projeto Moda Rio:

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“O mercado mudou muito de 1 ano pra cá, pois o Brasil é tão miscigenado, por que ainda tem que haver um modelo negro entre 10 modelos brancos? Ver um desfile do João Pimenta, que é um estilista que eu amo, amo a alfaiataria dele, e colocou 10 modelos negros para sair num desfile no ano passado, mudou, começou a mudar o mercado; e tem que ser assim, se a ‘minoria’ está nos morros, nas periferias, a gente tem que estar e quer estar nos lugares da moda também.” – Felipe Rocha / Fotografia: David Engel

 


 

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“Meu pai é a pessoa que mais me dá força, tanto que comprou uma briga com a minha mãe, que não queria que eu saísse de casa de jeito nenhum” – Dáfne Felício / Fotografia: Luis Moras

A modelo Dáfne Felício também marcou presença nesta edição: sua ligação com a moda começou dentro de sua própria casa.

Filha de mãe modelo com formação acadêmica, avó e bisavó eram costureiras, e sempre ouviu desde pequena de toda a família que seria modelo – apesar de ter uma irmã mais velha que nunca foi submetida a previsões sobre seu futuro.

Isso gerou um conflito em sua pré-adolescência, quando rejeitava ferrenhamente as predições; mas com o tempo ela reconheceu que a carreira era realmente o que queria para si e passou a conviver bem com isso.

Contudo, com a mudança da mãe a trabalho para o interior de Minas Gerais, viu o sonho de ser modelo distanciar, já que não havia mercado para a moda na região.

Mas no final de 2012, com 14 anos e em férias pelo Rio, o pai ofereceu a ela a oportunidade de voltar ao estado e correr atrás dos seus objetivos, que a essa altura já considerava quase perdidos.

E foi assim que em fevereiro de 2014 Dáfne voltou para morar com a avó e o tio, se dividindo entre os estudos, aulas de teatro e passarela.

 

Foi uma aluna reconhecidamente muito boa e esforçada, que treinava em casa até nos finais de semana; mas após se formar foi para uma agência de modelos supostamente grande, que 6 meses depois se rompeu. De lá foi para outra agência fundada por uma das dissidentes da primeira empresa, que também a deixou sem trabalhos por um bom tempo – e tudo isso com apenas 15 anos.

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Dáfne Felício / Fotografia: Luis Moras

“Eu estava completamente perdida; e quando você começa com moda e você é muito novo e quer muita coisa, qualquer coisa que vem já te deixa meio bobo (…) e quando você confia uma coisa que ama tanto a uma pessoa e essa pessoa te decepciona muito, você começa a pensar que não é pra ser…

Mas eu lembrava de que era isso o que eu queria a minha vida inteira e não ia parar, então me chamavam pra fazer um desfile e eu ia 100%, porque esse é o meu trabalho, não importa se vou desfilar para duas pessoas, eu vou fazer bem”

 

 

 

 

 

 

 

Dáfne também alertou para outro problema típico do nosso estado: no Rio de Janeiro existe um perfil de modelo muito padronizado, que é a menina ‘do cabelão/foto de praia’, mas que este cenário finalmente está mudando. Ela mesma já tentou se enquadrar neste perfil, que não a representa, até o ano passado, e isso gerou uma crise de identidade tão forte a ponto de gerar infelicidade e a atrapalhar de deslanchar na carreira.

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Felipe Rocha, Raíssa Santana e Dáfne Felício / Fotografia: Raquel Oliveira

Foi então que ela conversou com sua professora de estilo – hoje sua amiga – que tem uma visão de moda mais alternativa, e lhe deu a segurança de que precisava para mudar e se assumir fora do padrão carioca; seu maior conselho foi justamente para Dáfne cortar o cabelo, comprido, à época.

 

 

 

 

 

 

 

 

A mudança começou com uma pequena franja, e um convite da mesma professora para ela fazer um ensaio fotográfico para sua própria marca; mas com o tempo evoluiu para um corte mais radical, eliminando mais de meio metro de cabelo e adotando um visual à la Amélie Poulain, para a surpresa de todos – ninguém sabia o que ela planejava fazer.

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“A moda pede identidade (…) quando você trabalha com a sua imagem e não se identifica com a sua imagem, você não trabalha; e isso é certo, porque como você não acredita no produto que você está oferecendo?(…) Resolvi mudar porque vou estar sendo quem eu sou; eu vou estar provando pra mim que eu posso ser quem eu sou e é isso o que a moda pede, personalidade(…)” – Dáfne Felício / Fotografia: David Engel

E foi aí que Dáfne, após um longo período de crise, já começou a ser chamada 2 dias depois para trabalhar! Feliz por finalmente encontrar o seu lugar, consigo mesma e no mercado, ela encerra:

“Não foi ‘me chamaram pra trabalhar e eu virei a nova Gisele Bündchen’, ‘estou saindo na televisão’…mas sabe, me chamaram pra fazer uma coisa que eu amo fazer, e não me importa o tamanho, foi o que eu falei antes, estou fazendo o que eu quero, sendo quem eu quero, feliz fazendo o que eu quero(…) e não vou parar”

 


 

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Raíssa Santana, Miss Brasil 2016 – Miss Paraná 2015 – Miss Uarama 2015 / Fotografia: Luis Moras

Outra presença ilustríssima foi a nossa Miss Brasil, Raíssa Santana, que fez história ao ser a primeira mulher negra a vencer o evento em mais de 30 anos de hiato na premiação; sua reputação a precede, por isso ela gentilmente compartilhou conosco as partes mais inspiradoras de sua trajetória até as conquistas mais recentes neste Projeto Moda Rio.

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Raíssa Santana e Wallace Safra / Fotografia: Raquel Oliveira

Raíssa nasceu na Bahia, em uma família bem humilde, que veio para São Paulo atrás de melhores oportunidades de vida; a empreitada, no entanto, não foi bem sucedida. Então de São Paulo a família se mudou novamente para Umuarama, no vizinho Paraná.

No sul, ela confessa que infelizmente sofreu muio com o racismo no colégio, como toda criança negra em idade escolar, desde o primário.

Mas começou a ver o jogo virar na adolescência, quando foi trabalhar de recepcionista em uma academia da cidade: um fotógrafo que freqüentava o espaço um dia a convidou para um ensaio e, a partir da divulgação das imagens, um novo mundo de possibilidades se abriu para ela.

Raíssa concorreu e venceu o concurso de miss em sua cidade, e o Miss Paraná, em 2015; em 2016, foi coroada Miss Brasil, e neste ano, concorreu ao Miss Universo, ficando entre as top 13 finalistas!

Mas revela que queria ganhar o título máximo não pelo dinheiro, e sim por todas as pessoas que percebeu que seriam representadas por ela.

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“Cada vez mais a gente precisa ver pessoas em quem possa se espelhar, com o tempo entendi a profundidade da minha presença ali” – Raíssa Santana / Fotografia: David Engel

Ela admite que tinha pavor das agências de modelos, principalmente por conta das prováveis mudanças que afetariam a sua aparência; mas um dia revelou que não pretendia mudar e foi aceita – não só pela agência, mas por todo o povo brasileiro.

Mesmo assim, Raíssa conta que ainda teve que emagrecer 10kg para se enquadrar nos padrões, mas comemora que aos poucos a moda vem absorvendo nossas curvas e vê com otimismo esta mudança em relação à visão do corpo feminino, e à sua erotização.

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“Esse respeito é um reflexo da nossa liberdade e isso incomoda” – Raíssa Santana / Fotografia: David Engel

 


 

O Desfile

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Raíssa Santana, Munik Namour (Um Toque de Beleza/TVG Rio) e Izaquis de Paulo / Fotografia: Luis Moras

A tarde foi ocupada pelos workshops de consciência corporal, ministrada pelo Grupo 30 em Movimento, e de passarela, ministrada pela produtora Kamila Lima, da agência Workshop Models e o próprio Wallace Safra, mentor e gestor do Projeto Moda Rio.

O evento também ganhou a primeira edição de um desfile profissional, “O Brasil Como Ele É”, no segmento moda praia, com as marcas BangalôBetto Gomes, Camus e Chill Out Bikinis, cujas lives do backstage e passarela causaram frisson no Facebook e Instagram!

 

 

 

 

 

 

 

 

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Modelo: Amanda Fenelon; Figurino: Betto Gomes / Fotografia: Luis Moras

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Modelo: Alexandre Santos; Figurino: Betto Gomes / Fotografia: Luis Moras

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Modelo: Júlia Menezes; Figurino: Betto Gomes; Acessórios: Marieta Rigoni / Fotografia: Luis Moras

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Modelo: Júlia Menezes; Figurino: Bangalô / Fotografia: Luis Moras

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Modelo: Cláudio Santos; Figurino: Chill Out Bikinis / Fotografia: David Engel

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Produção: Raquel Engel, Wallace Safra e Ítalo Spinelli / Fotografia: David Engel

 

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Milton Cunha / Fotografia: Luis Moras

Fora da programação oficial, o carnavalesco Milton Cunha surpreendeu a todos com a sua presença vibrante, interagindo com os convidados;

E parabenizou a todos, equipe e presentes, pela iniciativa e participação no Projeto Moda Rio, cujo público vem crescendo a cada evento e a cada edição apresenta uma enorme melhora em sua infraestrutura.

 

 

 

O Projeto

A iniciativa, que comemora 1 ano em novembro, teve rápido crescimento em pouco tempo: entre a primeira e segunda edições circularam uma média de 70 pessoas, média que subiu para cerca de 500 participantes. Wallace Safra, mentor e gestor do evento, conta com uma equipe de profissionais como fotógrafos, maquiadores, assistentes de produção, produtores e modelos entre 15 e 50 anos, de diversas partes do Rio de Janeiro.

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Modelos do Projeto Moda Rio: Lorena Brandão, Taís Rodrigues, Alessandra Carlos e Lyriel Freitas / Fotografia: Luis Moras

Além de ajudar novos talentos a ingressarem a carreira de forma acessível a todos, principalmente jovens negros, que são cerca de 60% dos atuantes no projeto, Wallace explica que o Projeto Moda Rio tem a intenção de recolocar o Rio de Janeiro no circuito da moda nacional. De acordo com ele, o Rio vem perdendo ótimos profissionais para outros estados como São Paulo, por conta da falta de mercado e investimento no setor.

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Encerramento do desfile / Fotografia: David Engel

A próxima edição tem previsão para novembro, que também será um marco comemorativo de 1 ano de projeto, e a princípio será realizada no mesmo local; novidades e mais informações em breve e no arquivo do portal olhomagi.co 😉

 

 


 Onde acompanhar o Projeto Moda Rio e saiba mais:

 

Facebook – https://www.facebook.com/projetomodario

Instagram – https://www.instagram.com/projetomodario/

Vídeo institucional com depoimentos de quem faz acontecer e participa: https://www.youtube.com/watch?v=7XfBypbC6vs

Vídeo da campanha Rio in Sampa: https://www.youtube.com/watch?v=xm3q-6CAgbw


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Modelo: Nathallya Alves/Fotografia: Betto Gomes/Acessórios: Marieta Rigoni; Modelo: Kaduu Soares/Figurino: Betto Gomes; Modelo: MV Dias/Figurino: Betto Gomes; Modelo: Júlia Moraes/ Figurino: Betto Gomes. Fotografia: Luis Moras

 
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