Arquitetura, urbanismo, cidades e humanidades

Os brasileiros constroem milhares de edificações todo ano; no entanto, poucas são fruto de um bom projeto que traduz sonhos, identidades e garante o bem-estar de quem irá desfrutá-las. Historicamente não existe cultura de arquitetura e urbanismo no Brasil, mas principalmente de arquitetura, devido ao processo de formação do povo brasileiro como existimos hoje.

Avenida Rio Branco, RJ, 11/2/2017 (Acervo Pessoal)

Fruto do colonialismo, que dizimou grande parte dos conhecimentos ancestrais e construções originalmente brasileiras, as construções geradas a partir de 1500 foram inicialmente criadas para garantir a sobrevivência das pessoas que passaram a ser descartadas em solo brasileiro. O mesmo complexo de sobrevivência que, apesar de séculos mais tarde algumas expressões artísticas como a moderna, eclética, art deco, etc. serem importadas da Europa, perdura até hoje, no lugar de um complexo de vivência e autoconhecimento, como em outros países, e motiva as pessoas a continuarem construindo sem preocupações de natureza mais humanas, técnicas e legais. E que também desonera a maior parte da população, incluindo governos, da preocupação de preservar nosso patrimônio histórico – porque afinal, não há humanidade, tampouco identidade a serem preservadas.

Plano piloto da Barra da Tijuca e Baixada de Jacarepaguá (Lucio Costa, 1969).
Perfeito…para os carros

A profissão de arquiteto urbanista no Brasil ainda é alvo de uma visão extremamente marginalizada de duas formas: a primeira se refere à estranheza como um profissional que não é visto como parte de um universo tão elitizado, e que, automaticamente, passa a ser visto como alguém que sequer deveria estar nele; e a segunda, marginalizada por quem acredita que é uma profissão totalmente desnecessária e economicamente inacessível à maioria da população – um senso comum totalmente equivocado e que só gera perdas para todas as partes envolvidas.

Mas como ainda existe muita confusão no entendimento das atribuições e o que fazem os profissionais da arquitetura, decoração e design, vamos começar por algumas definições:

CT UFRJ, 13/8/2019 (Acervo pessoal)

O decorador é o profissional formado (ou não) em um curso de curta duração ou um autodidata responsável pela escolha, aquisição e organização de acessórios, móveis e cores nos ambientes sem alterar fisicamente o imóvel; o designer de interiores é o profissional que cria identidade para os ambientes de acordo com as demandas do cliente, o que pode incluir a criação de um novo design de mobiliário e superfície ou sugerir alterações estruturais no projeto desde que haja um responsável técnico especializado (engenheiro ou arquiteto), por exemplo, e que hoje também pode possuir formação universitária e registro no conselho responsável.

O arquiteto é o profissional responsável por projetar todo tipo de ambiente e imóvel, o que pode incluir o design de mobiliário e superfície, um trabalho se inicia a partir do momento em que se escolhe o terreno para a construção ou ambiente para intervenção, com parecer sobre localização, aspectos ambientais e topográficos, programa de necessidades, etc., e de acordo com a legislação vigente. O curso de Arquitetura e Urbanismo tem a duração de cinco anos, onde são abordados temas variados como história da arte, da arquitetura e do urbanismo, representação gráfica, design gráfico, cálculo estrutural, resistência dos materiais, construção, planejamento urbano, conforto ambiental, paisagismo, arquitetura de interiores, e mais.

Intervenção temporária na esquina entre as ruas Camerino e Marechal Floriano, Centro, RJ. Em 19/10/2015 (Acervo pessoal)

Por isso vale ressaltar que as categorias citadas não existem para disputar entre si, mas sim para se complementarem de forma a encontrar a melhor solução para o cliente. Pois nosso trabalho é sobre pessoas e sonhos, o que torna o respeito e uma visão holística (em sua totalidade), das partes envolvidas no processo de projeto componentes primordiais para um resultado bem sucedido.

Apesar de serem áreas complementares, porém distintas, no Brasil não existe a divisão, a nível acadêmico, entre as profissões de arquiteto e urbanista, como em outras partes do mundo; na prática isso nos torna profissionais versáteis e multidisciplinares, como a formação unificada da profissão de arquiteto urbanista nos permite ser.

Projeto para revitalização da Praça Emilton Santos, Maricá (Nobre Arquitetura, 2017)

No campo do desenho urbano, por exemplo, está comprovado que as mulheres andam muito mais a pé do que os homens porque são as que mais levam seus filhos e crianças em geral na escola e em postos de saúde; 45 milhões de brasileiros (praticamente a população da Coréia do Sul) sofrem algum tipo de deficiência física; o estado do Rio de Janeiro comporta a maior parcela de população idosa do Brasil, e no sudeste a capital carioca é a que possui o maior índice de deficientes: 1 em cada 4 moradores da capital possuem algum tipo de deficiência física (IBGE, 2010).

Inicialmente, os povos originários do Brasil (Tupis, Guaranis, Yanomamis, entre vários) compreendem e tratam a terra como uma entidade viva e parte de si, mãe e provedora, uma visão e narrativa que hoje sabemos serem compartilhadas – porém historicamente silenciada – por nossos ancestrais trazidos à força da África. No entanto, o modelo de cidade como conhecemos hoje revela a nossa relação doentia com as águas e quase perdida com a natureza, lida apenas como fornecedora de matérias-primas, depósito de lixo ou uma mera inconveniência – a mesma que se reflete na inconveniência e na violência de não podermos existir nos espaços públicos.

As cidades gritam…mural “Dororidade”, à esquina das Ruas do Lavradio e Visconde do Rio Branco, Centro, RJ (2018), das afrografiteiras da Rede Nami | Acervo pessoal

Este modelo de cidade moderna, historicamente concebida a partir de uma perspectiva masculina, jovem e eurocêntrica, é totalmente alheia às nossas demandas pessoais, sociais, raciais e de gênero, a começar por aquelas demandas citadas anteriormente, que são as mínimas – é como se, de fato, não existíssemos. Pois durante muito tempo o espaço urbano foi projetado para as coisas, carros e outros meios de transporte e edifícios, relegando as pessoas, nossas diferenças e necessidades vitais a último plano – e ele precisa voltar a ser pensado para os seres que a habitam.

E essa mudança só será possível através do conhecimento formado a partir das diferentes narrativas e vivências levadas para o meio acadêmico, do diálogo promovido com outras áreas, integrando os saberes diversos envolvidos nos processos de projeto, planejamento e gestão. Porque quanto maior a pluralidade, maiores serão as perspectivas de criação, produção e existências levadas para o campo da atuação profissional.

Projeto para a Pracinha Oscar Freire, SP (Zoom Arquitetura e Design, 2014)

Pois pensar a cidade do futuro é pensar nas pessoas que irão habitá-la e ocupá-la; é pensar nas mulheres e em como a nossa presença em certos espaços e horários ainda é vista com estranheza e extremamente passível de violência; é pensar acessibilidade e em necessidades especiais dos mais diferentes tipos; é pensar racialmente, tendo a consciência de que a escala da opressão varia tragicamente em função de gênero, raça e classe social. Gerar a integração do espaço com as nossas existências diversas é uma prática cada vez mais evidente no urbanismo, vide a disseminação de pequenas áreas de estar públicos (os parklets e pocket parks), grafites integrados à arquitetura e à paisagem urbana, slams, rodas de poesia, flash mobs, etc., e um caminho sem volta.

Pracinha Oscar Freire (Zoom Arquitetura e Design, 2014)

Por essas e outras o Brasil precisa aprender a assumir, resgatar e valorizar de vez suas identidades plurais e a sua vocação enquanto matriz criadora e multiplicadora de potências naturais, culturais e artísticas, fazendo transbordar o caldeirão de talentos que ajudam a co-criar e recriar diariamente o brilho deste país. Pois conforme pontuado lá no início, nosso trabalho é sobre pessoas e sonhos – tudo é sobre pessoas e sonhos. E somos nós quem fazemos a diferença.

Mural “Etnias” – Eduardo Kobra, Zona Portuária do Rio de Janeiro, o 2° maior do mundo (o 1° maior é do próprio artista!) | Fonte: eduardokobra.com

P.S.: Para um melhor entendimento do impacto do desenho urbano em nossas vidas recomendo o curta: “Sob Constante Ameaça” (2018), disponível no YouTube, de apenas 25 minutos.